ERA UMA VEZ dois meninos, Neco e Bira, muito amigos e travessos, que moravam em fazendas vizinhas no interior do Rio Grande do Sul. As fazendas eram de criação de gado e grandes plantações de arroz e soja. Os meninos estavam sempre juntos e costumavam participar voluntariamente nas lides diárias, auxiliando os peões, principalmente se os serviços fossem feitos a cavalo (pois adoravam cavalgar).
Seus pais, homens ricos e cultos, costumavam deixá-los bem à vontade, com muito tempo para brincadeiras e..... diabruras!
Um belo dia, quando já passava das dez horas da manhã, lá estavam os dois amigos, na casa do Neco, junto à janela do escritório dos móveis antigos, de onde se descortinava um jardim maravilhoso de palmeiras e algumas árvores frutíferas, que se misturavam com lindos arbustos e belas flores. A passarada cantava de ensurdecer. O sol e a luminosidade do dia eram encantadores.
- Neco, você já está com as armas prontas?
- Sim. Tu ficas com a arma de salão (uma espingarda calibre vinte e dois) e eu levo a espingarda de chumbo (calibre dezesseis), e a de chumbinho que é para brincarmos um pouco mais.
Os dois amigos saíram para caçar passarinhos, e com armas de verdade. Com eles, além das armas, levavam alguns apetrechos. Nesse dia não foram nos cavalos, mas a pé, em matos bem próximos das casas. Perto do meio dia chegavam os dois amigos. E traziam um carrinho de quatro rodas que vinha puxado por Bira, cheio de passarinhos abatidos pelos tiros de espingarda.
Entre os passarinhos, havia até um joão-de-barro e muitas caturritas, numa demonstração do espírito malvado e predatório dos meninos.
- Que malvadeza desses moleques! Dizia, com irritação, o chefe dos duendes azuis, que cuidavam daqueles campos e matos. O duende-chefe fungava alto, fazendo o maior barulho. Alguns desses pequeninos seres, invisíveis para a grande maioria dos humanos, estavam rochinhos de raiva e brabeza.
- Temos que tomar providências! Dizia um deles.
- Drásticas, encorajava outro.
- Definitivas, acrescentava uma garota-duende, de pele azul-clara, belíssima.
- Eu sei! Eu sei! Dizia o duende-chefe, mas não me pressionem! Não me pressionem! Fico nervoso, e não consigo resolver as coisas!
Tarefa difícil a desses pequenos seres que cuidam da natureza. Segundo os grandes estudiosos desse assunto, eles, na verdade, pouco ou quase nada podem fazer com relação aos humanos, a não ser emitir bons pensamentos para as crianças que são arteiras e levadas, como Neco e Bira.
- Temos que castigá-los, dizia um duende azul escuro, com aparência de chefe.
- A natureza é sábia. Ela mesma se encarregará das represálias. Vamos somente nos concentrar. Venham, vamos fazer um círculo de poder, determinou o duende-chefe.
Enquanto isso, Neco e Bira levavam o carrinho cheio de passarinhos mortos para a cozinheira. E Neco ordenou:
- Olha aí, dona Vilma, prepara uma passarinhada para nós. Vamos comer todinhos!
- Que judiaria, Neco! Vocês são uns demônio! Tá bão. Se a tua mãe concordá, eu cozinho esses pobre bichinho.
E dona Vilma entrou para a cozinha puxando o carrinho, balançando a cabeça e resmungando.
Os duendes azuis observavam tudo, um pouco retirados, por detrás das árvores maiores do grande pátio da fazenda. Todos estavam com caras de poucos amigos, de nariz torcido.
Neco e Bira saltitando pelo pátio grande, decidiram brincar de jogar bola. Corriam junto com os grandes cachorros ovelheiros, e os pequenos também, em sua maioria da raça fox. Corriam igualmente atrás de algumas galinhas que haviam escapulido do galinheiro, com grande algazarra em suas correrias e brincadeiras.
Zé Gandaia, o varredor dos pátios, era um homem negro, velho e forte. Sua mãe foi do tempo da escravatura. Mas ele já nasceu livre. Era um bebê "de ventre-livre". Assim eram chamados naquela época todos os meninos negros que nasceram depois da lei que recebeu esse nome. Jamais seriam escravos, graças a Deus!
O Zé Gandaia observava tudo. Ele gostava do Neco e do Bira. Ajudava-os, ensinando e amparando os garotos. Mas também ficava muito triste quando eles faziam travessuras e malvadezas.
-HUUMM! Malvadeza traz malvadeza. Isso não vai dar em boa coisa, dizia o Zé Gandaia, em sua sabedoria de homem do campo.
No pátio das laranjeiras, o primeiro acidente logo aconteceu. Dois duendes mais exaltados, e contra a ordem do duende-chefe, que não permitia interferências - a não ser a transmissão de bons pensamentos - trataram de confundir, pelo pensamento, os nossos dois personagens. Neco e Bira brincavam, agora com a espingarda de chumbinho. Essa arma não era completamente de verdade. Era para tiro ao alvo, e os seus tiros não chegavam a matar nem mesmo um pássaro, muito menos uma pessoa, mas poderia ferir, principalmente se acertasse no olho.
Não era "vontade" do Neco, mas com o pensamento confundido pelos dois duendes mais exaltados, acertou uma chumbada na barriga do Bira. Este gritou alto, ficou furioso. Por sorte o chumbinho fez somente um pequeno furo, superficial. Não foi grande coisa, só um pouco de dor e o susto. E os dois amigos ficaram meio brigados, por algumas horas, pois o Bira não aceitava as desculpas do Neco.
O dia passava. Alguns dos passarinhos foram realmente almoçados pelos dois meninos. Bira quase quebrou um dos seus dentes, ao mastigar dois chumbinhos que estavam no corpo do passarinho que tinha sido cozinhado pela dona Vilma, da mesma forma como se cozinham as galinhas e outros animais que os humanos ainda comem em suas refeições.
No final da tarde, outro acidente assusta, e muito, os nossos garotos traquinas. Bira e Neco, já com o sol se pondo, chegam no galpão principal da fazenda para desmontar dos cavalos, depois do longo passeio que fizeram. Os meninos apearam e começaram a retirar as selas. Nisso, um dos peões da fazenda entra com seu trator no galpão, em marcha acelerada e sem aviso. Os cavalos se assustam. O animal que havia sido montado por Bira, um baio enorme e muito bonito, solta uma patada violentíssima que acerta as duas coxas do menino.
Algumas risadinhas, quase imperceptíveis, foram ouvidas no alto da grande e forte estrutura do galpão. Seriam os duendes? Mas como estava escuro, não se podia ver quase nada sob esses enormes telhados, cheios de vigas e madeiramentos próprios para depósito de coisas e bugigangas.
Para encurtar a nossa história:
Muitos gritos e choros do Bira, que quase teve uma perna quebrada, e por pouco uma das patas do baio não acerta a região genital do menininho. Foram três dias de cama para ele. E para o Neco, o castigo de não ter com quem brincar, por vários dias!
Agora preciso falar de uma estranha coincidência. Os passarinhos que morreram, e que foram assados e comidos pelos meninos, tiveram suas almas de passarinho recolhidas e cuidadas pela comunidade dos duendes azuis. Foram levados para hospitais da terra dos duendes, que ficava logo ali, pois tinham que se reanimar e participar da grande cerimônia de missão cumprida nos territórios de Gaia (Gaia é a Terra, na linguagem dos sábios).
Essa cerimônia dura três dias: um dia para reanimação e cura; outro dia para apresentar os relatórios; e o último dia para a festa, os presentes, os abraços, os encontros com amigos e parentes-passarinhos.
Bem, no final do terceiro dia, no auge da cerimônia comandada pelos duendes azuis, era determinada a hora da escolha. Os passarinhos que foram mortos pelos nossos amiguinhos Neco e Bira tinham que decidir: teriam que escolher se queriam voltar para a Terra e ensinar um pouco mais de harmonia e beleza para os humanos, ou se preferiam partir para o mundo além do grande portal, quase no final da terra dos duendes azuis.
Alguns decidiram voltar. E por incrível que pareça, justamente para os mesmos pomares onde Neco e Bira costumavam brincar com armas de verdade. Eram valentes demais, esses passarinhos!
- Mas agora seremos mais espertos, disseram eles para os duendes. Vamos ficar mais atentos para que Neco, Bira e outros não atrapalhem mais a nossa grande missão.
Alguns quiseram descansar, indo para além do grande portal, mas se acaso sentissem saudades – disseram para os duendes – solicitariam permissão para mais uma nova missão no mundo de Gaia.





